[Healthnews] Ana Paula Nunes: “A Inteligência Artificial em saúde só será ética se também for ambientalmente sustentável”

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[Healthnews] Ana Paula Nunes: “A Inteligência Artificial em saúde só será ética se também for ambientalmente sustentável”

A Inteligência Artificial (IA) está a transformar profundamente todas as áreas da saúde. Sistemas de apoio à decisão clínica, algoritmos capazes de interpretar exames imagiológicos, modelos preditivos para cuidados intensivos, medicina personalizada, robótica cirúrgica e monitorização remota anunciam uma nova era na prestação de cuidados de saúde. A discussão ética destas tecnologias tem incidido, legitimamente, sobre a proteção de dados, a transparência algorítmica, os enviesamentos, a supervisão humana e a responsabilidade profissional. Contudo, existe uma dimensão ética praticamente ausente deste debate: o impacto ambiental da infraestrutura física que sustenta a IA.

É frequente descrevermos a IA como uma tecnologia digital, mas essa designação é apenas parcialmente verdadeira. A IA é, antes de mais, uma tecnologia física. Cada algoritmo executa milhares de milhões de operações matemáticas em processadores especializados instalados em grandes data centers, infraestruturas que consomem enormes quantidades de eletricidade, necessitam de sistemas permanentes de refrigeração, utilizam água, ocupam território e dependem de cadeias globais de matérias-primas estratégicas. A inteligência computacional assenta, em última análise, numa infraestrutura energética de enorme dimensão.

Esta constatação introduz uma nova responsabilidade bioética. Durante décadas, a bioética preocupou-se sobretudo com os efeitos imediatos das intervenções clínicas sobre cada doente individual. Hoje, a utilização crescente da IA obriga-nos a alargar o horizonte moral das nossas decisões. Já não basta perguntar se um algoritmo melhora a precisão diagnóstica ou reduz a mortalidade. É igualmente necessário questionar quais os custos ambientais da infraestrutura que permite alcançar esses benefícios.

Este raciocínio não pretende diminuir a importância da IA na medicina. Pelo contrário. Os seus benefícios são inegáveis e poderão traduzir-se em diagnósticos mais precoces, tratamentos mais personalizados, redução dos erros clínicos, melhor utilização dos recursos e aumento da qualidade dos cuidados. O problema ético não reside na utilização da IA, mas na possibilidade de a desenvolvermos ignorando os impactos ambientais decorrentes do consumo crescente de energia necessário para sustentar essa inovação.

É precisamente neste ponto que emerge um dos maiores desafios bioéticos da próxima década. Se uma tecnologia melhora a saúde de determinados doentes, mas simultaneamente contribui para aumentar pressões ambientais que, direta ou indiretamente, agravam os determinantes ambientais da saúde das populações, então a avaliação ética dessa tecnologia não pode limitar-se aos seus benefícios imediatos.

A Organização Mundial da Saúde reconhece as alterações climáticas como uma das maiores ameaças à saúde global do século XXI. O aumento das temperaturas, os fenómenos meteorológicos extremos, a degradação da qualidade do ar, a escassez de água, a insegurança alimentar e a expansão de determinadas doenças infecciosas, constituem fatores que afetam milhões de pessoas em todo o mundo. Estes fenómenos possuem múltiplas causas, mas a produção e o consumo de energia permanecem entre os seus principais determinantes.

Neste contexto, surge um aparente paradoxo ético. Poderemos estar a desenvolver tecnologias extraordinariamente eficazes para tratar determinadas doenças enquanto contribuímos, ainda que involuntariamente, para processos ambientais que aumentam o risco de doença noutras populações ou nas gerações futuras. Não se trata de afirmar que a IA seja responsável pelas alterações climáticas, nem que os seus benefícios clínicos deixem de justificar a sua utilização. O verdadeiro desafio consiste em reconhecer que a inovação tecnológica também produz impactos ambientais que devem integrar a avaliação ética das políticas de saúde.

Leia o artigo completo aqui: https://healthnews.pt/2026/07/04/a-inteligencia-artificial-em-saude-so-sera-etica-se-tambem-for-ambientalmente-sustentavel/

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