[Healthnews] Ana Paula Nunes: “Quando a linguagem humaniza a máquina”
2026-08-06 12:54[Healthnews] Ana Paula Nunes: “Quando a linguagem humaniza a máquina”
A inteligência artificial entrou definitivamente no universo da saúde. Fala-se de sistemas que “aprendem”, “compreendem”, “decidem”, “raciocinam”, “observam”, “reconhecem emoções” ou até “alucinam”. Esta terminologia tornou-se comum em artigos científicos, apresentações em congressos, notícias e discursos institucionais. Contudo, existe um problema raramente discutido com a profundidade necessária, uma vez que muitos dos conceitos utilizados para descrever a IA pertencem originalmente ao domínio humano e, paradoxalmente, continuam a ser objeto de intenso debate filosófico, psicológico, neurocientífico e ético quando aplicados ao próprio ser humano. Este não é um mero problema semântico. É um problema epistemológico, clínico e bioético com consequências concretas para os profissionais de saúde, para os decisores políticos e para os cidadãos.
A linguagem molda a realidade que percebemos. Quando dizemos que uma IA “pensa”, estamos a sugerir uma continuidade entre o processamento computacional e o pensamento humano. Quando afirmamos que um sistema “entende” um doente, insinuamos uma forma de compreensão que, nos seres humanos, envolve a experiência vivida, intencionalidade, contexto biográfico, emoções, valores e consciência de si. Ao utilizar estes termos de forma acrítica, corre-se o risco de antropomorfizar a tecnologia e de obscurecer a diferença fundamental entre correlação estatística e compreensão existencial, pois estamos a atribuir à IA conceitos cuja definição ainda não conseguimos estabilizar e uniformizar para nós próprios.
Tomemos o exemplo da inteligência. Não existe uma definição universalmente aceite de inteligência humana. As teorias variam entre abordagens psicométricas, cognitivas, adaptativas, sociais, emocionais e ecológicas. O mesmo acontece com a consciência, a compreensão, a criatividade, a autonomia, a intenção ou a empatia. São conceitos em permanente evolução, influenciados por avanços científicos, mudanças culturais e debates filosóficos. Apesar dessa incerteza, transferimos esses mesmos termos para sistemas computacionais como se o significado e a sua aplicação fosse evidente.
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