ESS CVP Lisboa promove reflexão sobre o impacto do estigma e da discriminação nas pessoas que vivem com VIH

Conferência “Dia da Discriminação Zero: Impactos reais associados ao HIV”
ESS CVP Lisboa

ESS CVP Lisboa promove reflexão sobre o impacto do estigma e da discriminação nas pessoas que vivem com VIH

No âmbito do Dia da Discriminação Zero, a Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa (ESS CVP Lisboa) reuniu especialistas, decisores políticos e a comunidade académica para debater os “Impactos Reais Associados ao VIH”. Neste evento, organizado em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa | Departamento para os Direitos Sociais no âmbito da Iniciativa Lisboa Sem Sida, com o GAT, com a SER+ – Associação Portuguesa para a Prevenção e Desafio à Sida e com o Centro Anti-Discriminação VIH, foram analisadas as barreiras que ainda impedem a plena inclusão e o bem-estar das pessoas que vivem com o vírus em Portugal.

O Estigma em Números: Uma Realidade Global e Local

A sessão de enquadramento, conduzida por Ana Duarte (Associação Ser+; Centro Anti-Discriminação VIH), trouxe dados globais e nacionais que revelam a dimensão do desafio:

  • Barreiras Legislativas: Atualmente, existem 156 jurisdições no mundo que ainda criminalizam a transmissão, exposição ou não revelação do VIH.
  • Impacto em Portugal: No último ano, o Centro Anti-Discriminação registou 169 casos de discriminação, provando que o quadro legal nem sempre trava práticas discriminatórias no quotidiano.
  • Saúde Mental e Autoestigma: Cerca de 9,3% das pessoas que vivem com o vírus reportaram sentimentos de autoestigma, um fator que pode levar ao isolamento e comprometer a continuidade do tratamento.

Debate: Perspetivas Comunitárias e Clínicas

A mesa-redonda, moderada por Jorge Martins (GAT), contou com intervenções cruciais sobre a intervenção direta e a prestação de cuidados:

  • Inclusão Social e Intervenção Direta: João Brito (GAT/Centro Anti-Discriminação VIH) partilhou a sua vasta experiência na intervenção direta junto das populações mais vulneráveis. Destacou a importância de promover a inclusão social e de garantir que o apoio comunitário chegue de forma eficaz a quem mais precisa, combatendo o isolamento provocado pelo estigma.
  • A Abordagem Clínica e o Cuidado: A enfermeira Catarina Santos (Hospital de Cascais Dr. José de Almeida) trouxe a perspetiva do terreno sobre o impacto do estigma na prestação de cuidados de saúde. A sua intervenção sublinhou como o preconceito, mesmo quando implícito, pode influenciar a qualidade do atendimento e criar barreiras no acesso aos serviços de saúde, reforçando a necessidade de uma prática clínica empática e fundamentada nos direitos humanos.
  • Políticas Locais: Miguel Soares (CML) sublinhou que a resposta ao VIH deve ser territorializada e integrada nas estratégias municipais para a igualdade.

Um dos momentos mais marcantes da conferência foi o testemunho na primeira pessoa de Joana Assunção (GAT e Centro Anti-Discriminação VIH), que trouxe para o debate a realidade vivida por quem ainda enfrenta estas barreiras. No seu testemunho partilhou que persistem “entraves” práticos em direitos sociais básicos, como o acesso a seguros de vida, acrescentando que as pessoas que vivem com VIH ainda enfrentam grandes obstáculos discriminatórios.

Contributo da formação, investigação e capacitação dos futuros profissionais de saúde

As docentes Maria do Céu Pires e Dora Carteiro destacaram que, apesar dos avanços no VIH, persiste um desafio central: a forma como as pessoas são tratadas nos cuidados de saúde.

A discriminação, frequentemente associada à falta de formação, levanta questões sobre a preparação dos estudantes. Os currículos são determinantes no conhecimento, nas atitudes e no desenvolvimento do pensamento crítico.

Foram identificados três eixos: integração curricular precoce, transversal e contínua; metodologias ativas, como simulação, casos reais e contacto com pessoas que vivem com VIH; e investigação, incluindo competências éticas, relacionais e de pensamento crítico, bem como o estudo das atitudes dos estudantes.

A integração estruturada da sexualidade na formação da ESSCVP Lisboa melhora a prevenção das IST, incluindo o HIV, ao promover uma abordagem aberta, informada e sem preconceitos. Isso ajuda a esclarecer formas de transmissão, combater mitos e incentivar comportamentos preventivos.Também enquadra a saúde sexual como um fenómeno complexo, envolvendo dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, e reforça competências como comunicação e pensamento crítico.

Fim da Discriminação: Um desafio de futuro

O encerramento, a cargo de Bárbara Flor de Lima, Diretora do Programa Nacional para as IST e Infeção por VIH, reforçou que o fim da discriminação exige um trabalho contínuo em rede, unindo a academia, as instituições públicas e a sociedade civil.

Com esta iniciativa, a ESS CVP Lisboa reafirma a sua visão — “O Futuro da Saúde” — demonstrando que a excelência clínica é indissociável da justiça social e do respeito integral pela dignidade humana.

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